Sem nós

Sem nós
O que me prende a ti não são laços. Talvez, nós.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Em tons de gris

Hoje, o cinza que vestia
minha pele
despertou entre cores.
Foi além do arco-íris,
das opções de aquarelas.
Se permitiu experimentar.
Então...
entregou-se a pincéis,
se abriu a novos tons
despertou os mais delicados
pintores.
Hoje, o cinza que vestia
minha pele
esparramou-se
em telas brancas.
E ficou assim
por horas e horas
sem pedidos,
sem direcionar os traços.
Apenas um eu,
neutro e cinza
que se deixou
cobrir de cor.

sábado, 9 de julho de 2011

Sem lógica

Não sei por onde anda sua alma.
Não sei aonde estão seus amores.
Mas meu traço ainda é o mesmo.
Espera, apenas, a intersecção com o seu.
Mas sei que as conversas
são tão matemáticas
que perdem-se em equações.
E, eu, nem tenho estatísticas.
Por isso sento e espero
uma análise sintática,
uma interpretação de texto
ou a resposta correta
que conjugue o verbo,
recomponha a frase
e desvende o caminho.

Como tricô

Sou apenas o que te cutuca
o que te faz rir.
Sigo a trilha que traças
e, mesmo assim,
me escapas
como pontos de tricô
que entrelaçam
os dedos das meninas.
Apenas rastros
que bordam
as pontas de panos
que encobrem rostos
e ornamentam
almas esquecidas.

Ausências

Não sabia que o amor
podia ser tão passivo.
Algumas vezes, até,
permissivo.
Não sabia que gostar
transcende
o instinto de sobrevivência.
Gostar desperta nosso lado
mais infernizante,
aquele que cospe fogo
e acende a parte obscura,
que levanta em poucos segundos
um muro.
Retrato de nossas ausências.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Vestes

Não sabemos nunca o que esperar
mas faça chuva ou sol
se acordarmos....
temos algo a fazer sim.
E mesmo na tristeza...
temos algo a fazer sim.
As emoções, os acontecimentos
seja qual for o motivo,
o problema ou o ganho...
temos sempre uma chance
de escolher.
É sempre assim
que penso
quando troco
minhas vestes.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Apenas um quadro

Há tempos não me sinto assim...
Um certo ar de quietude,
uma calma branca,
coisas estranhas a mim.
Mas tenho gostado
de cavalgar,
de retomar as rédeas.
O universo é o mesmo.
Posso fazer escolhas...
ou ficar encostada
em uma parede branca,
moldura,
recortes de mim.
Mas não nasci para ser um quadro.
Minhas cicatrizes são luzes,
pequenas fagulhas
onde me deixo refletir,
me espalho,
me deixo ir.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Escolha?

Lá vai novembro
e acho que nada fiz.
Tão pouca entrega
e grandes expectativas.
Vivo no extremo
do que posso chamar
de medíocre.
Não peço nada,
comemoro o pouco
que ganho...
Minha vida aqui
minha alma ali.
Intersetorialidade.
Integração.
Grupo de trabalho.
Afinar o discurso.
Comissão, discussão,
debates, seminários
etc etc etc.
E tudo começa aos 17 ou 18...
exatas ou humanas?
Hã?
Também nem sei
se ainda é assim.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Eu não sei...

Apenas um beijo.
Foi tudo que pedi.
Já tinha tantas coisas
até o seu mais íntimo medo.
Compartilhei dores,
suores, terrores...
Dormi tão nua em seus braços,
chorei em seu colo
e você no meu.
Tomei sua sopa,
provei seu remédio,
amargo...
Sei, também,
que me lambuzei de doces,
andei feliz na chuva,
conheci seus lugares,
seus caminhos mais bonitos.
Suas canções.
Pouco dormi.
Em todo esse tempo
não pensei em mim.
Ou só pensei em mim.
Difícil explicar...
Mais ainda... entender...
Então...
por que não
um beijo?
Por que?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Simbiose

São dois lados
que vestem nossa face.
Fremente forma
de ver o mundo.
Máscaras que ornamentam
o que aprendemos a compor.
Trêmula energia que tanto irradia
a intimidade do ser.
Complementos, descompassos,
opostos que se procuram.
Reflexo do que projeto,
avesso do que transpiro.
Estranha forma de ver o belo
em riscos primitivos
e tão próximos
do que realmente somos.

Gil, pra você.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Como um vento

Noite que acalma
desfaz as dores.
Lentamente,
sossega o peito
como um vento
que passa,
levanta poeira
e se desvanece
em qualquer curva.
Somos assim
e não estamos tão sós.
É fácil de entender
quando ouvimos,
de perto,
a respiração do outro
e nosso coração
bater mais forte.

sábado, 5 de junho de 2010

Anatomia

Somos uma estrada.
Para outros ou nós mesmos.
Apenas uma passagem.
Mas não precisamos de troco
ou de lugares vazios.
Neste mundo sideral
as veias são as pontes
as cordas vocais
o verbo.
Traçamos em músculos
os caminhos certos.
Em nervos, os incertos.
Estranho modo
de estudar o corpo humano.
Ou apenas um certo modo
de expressar o novo.

sábado, 29 de maio de 2010

Palco

Como explicar
quando alguém se vai
porque quis?
Simplesmente, decidiu.
E foi.
E aqui ficamos nós...
Alguém decidiu decidir!
Entender,
procurar as razões,
desatar os nós.
Não é bem assim...
Quando alguém resolve
interferir no destino
não sabemos mais
se foi mesmo o destino
ou descompasso,
desatino.
O artista principal
fechou as cortinas
com as próprias mãos.
E no meio do show.
Simplesmente, fim.

sábado, 8 de maio de 2010

Mea culpa

Mãe, ontem sonhei com você. De rabo de cavalo, com livros embaixo do braço. Uma linda colegial. Você sempre foi linda mesmo. Nos esbarramos, pedi desculpas, você não me reconheceu. Queria lhe dizer que era sua filha. Mas você estava tão feliz!!!! Naquele momento, achei que eu é que tinha partido. E deixei você ir.... Fiquei olhando... aquela moça tão cheia de si.... pronta a aprender mais. Entendi que não podia parar o seu seguir. E voltei... acordei e vi que a vida prossegue sim. Mas nada me impede de dizer que preferia que você estivesse aqui. Egoísmo? Falta de fé? Não sei...Tantas alfinetadas, briguinhas bestas. E, eu, hoje aqui. Difícil ser mãe. Deve ser mais fácil ser avó. Que belíssima pessoa você foi. Desculpa por não ter tido coragem para aplaudir sua coragem.

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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Em tempo

Paixões surgem
fora de época.
Em um carnaval em novembro,
nas férias de abril
ou entre corações
já de outros.
Sem tempo certo
o querer rasga a pele
provoca tufões.
Capricho da natureza
que penetra em compartimentos
sem carimbo de aprovação.

Não é preciso ser assim...

Do equilíbrio das formas
surge novas possibilidades
perdidas no turbilhão de imagens
sem foco.
Desvenda-se devagar
o destino
no significado
das cores
de um caleidoscópio
em mãos infantis.
Se vestimos capas de adultos
é a força das circunstâncias
já que a verdadeira alma
passeia brejeira
em lugares
onde tudo é novidade.
Essa alma prefere vestidos floridos
ou calças curtas
e sorrisos inocentes.
Mas vive aprisionada
no velho e antigo
porão das nossas
mágoas.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Bela adormecida

A estrada que escolhemos
não tem desvio ou retorno
cercada de abismos e mata
longa e sinuosa
onde poucos
querem passar.
Mas os loucos e poetas
são ousados o bastante
e se entregam a desafios
se aventuram
porque sempre sabem
o que vão encontrar.
Loucos e poetas
nunca se enganam
porque vivem a certeza
e fazem dela um objetivo
seja ser Napoleão
ou acordar com um beijo
alguém que dorme há cem anos.

Resgate em cristal

Da noite,
apenas vestígios de nós dois.
Restos no prato e na cama
migalhas e almofadas
pelo chão.
A urgência da febre
não tem analgésicos.
As mantas que cobrem meu corpo
sãos as mesmas que usamos
juntos.
E, agora, minha pele arde
sozinha.
Triste momento
que o destino
escreveu.
Não resta mais nada
a não ser a entrega
a pensamentos hostis,
arrepios pelo corpo,
nervos estilhaçados
e fibras esticadas ao limite.
Mas não sou de entregar os pontos
me recosturo inteira
com os mais finos acabamentos.
Enquanto você espera
me ver em frangalhos
apareço com a mais fina das vestes.
Feitas de cristal.
Presentes dados
pela mãe terra
tirados do mais profundo
leito
do Planalto Central.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Para alguém que nunca vai ler

Vem... vem pro meu colo
te sossego, menino
lhe dou o meu sono,
meus devaneios....
minha energia!
Vem... vem pro meu colo
te embalo, menino
aquieto seus rompantes
suas inquietações
suas pontes....
estas não...que elas possam levá-lo
a lugares desconhecidos
novos e plenos
de exclamações, pontos e interjeições.
Meu colo é seu...
minhas loucuras são suas.
Meu hoje é a areia da praia
a chuva da calçada
o encontro em bancos altos
a explosão.
Num quarto mágico
o mais incrível que já vi
entre luzes e toques
por um momento
somos deuses.
Entre o plano e os morros
não sei mais onde nasci
talvez
entre seus braços.

Em cena

São tantos os anseios
estancados por não haver permissão
para ser o que somos,
mostrar apenas o que temos
nada mais do que isso.
Simples e complexo.
Jogar-se e reter o sonho.
Tantas escolhas
confusas, difusas.
Emaranhados de palavras
que teimam em rodear
a verdade do que somos.
A vontade de entregar
o tudo em apenas duas mãos.
Nada fácil se devassar.
Mais confortável é vestir personagens,
confundir a platéia
e deixar pra quem tem alma de artista
vasculhar o que está profundamente
atado ao peitoc
om um imenso medo
de explodir.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Sem juízo


Se os olhos queimam

Deixe jorrar a água

para lavar as cinzas

que os encobrem.

E sinta as gotas mornas

deslizando em seu pescoço

como mãos apaixonadas

que querem conhecer

todos os recortes.

Por um momento

perca mesmo o juízo

esvazie o peito e deixe fluir

o tudo guardado.

Ninguém poderá entulhar seus depósitos

com quinquilharias

ou destroços.

Você foi talhado

seguindo seu próprio molde

e quem quiser gostar

que goste.